Skip to content

Pussy Riot: conheça o grupo feminista que invadiu a final da Copa 2018.

Feministas, punks e anti-Putin, esta é a melhor definição do grupo Pussy Riot, um dos mais venerados movimentos artísticos, sociais e políticos de contestação da ordem atual. O grupo que invadiu o campo de futebol durante a final da copa da Rússia tem uma série de ações e performances públicas em seu currículo, o que as torna as opositoras de Vladimir Putin mais queridas e idolatradas do cenário atual. Elaboramos um breve dossiê sobre o grupo que lidera os trendings de notícias, cuja ação repercutiu mundialmente e fez a todo o mundo voltar sua atenção às demandas políticas por mais democracia e participação igualitária na política russa.

Uma das integrantes cumprimenta o jogador Kylian Mbappé Lottin durante o sua performance no final da Copa do Mundo da: Policeman enters the Game (traduzido como Policial entra no jogo).

Breve Histórico de Pussy Riot

Antes de se firmar como um dos mais conhecidos grupos ativistas da Rússia, os membros fundadores de Pussy Riot integraram diferentes movimentos políticos, artísticos e sociais. Nadja Tolokonninova é popularmente conhecida como uma das mentoras do grupo, embora não haja hierarquização dentro de Pussy Riot; esta ideia está associada intrinsecamente com a exposição imagem de Nadja como o “rosto” de Pussy Riot, já que ela é uma dos poucos membros a terem a face conhecida (a maioria dos membros tem suas identidades anônimas, até mesmo para algumas integrantes).

Nadja foi uma aluna prodígio e desde bem jovem integrou movimentos políticos questionadores da ordem; em 2007, integrava o numeroso grupo performático Voiná, junto de Pyotry Verzilov, seu namorado, e de Yekaterina Samutsevich, sua amiga, que viriam a se tornar integrantes de Pussy Riot. As propostas do grupo Voiná eram de intervenções públicas que variassem do choque ao horror, contestando o autoritarismo radical do governo Putin, a censura ao discurso e a agressividade da polícia russa. Uma das intervenções que ficou nacionalmente famosa ocorreu em fevereiro de 2008, nomeada de “Fuck for the heir Puppy Bear” (Transe pelo herdeiro, o Ursinho), em protesto à eleição presidencial de Dmitri Medvedve. “Ursinho” é uma paródia com o nome do político, “medved” que em russo significa urso, e também uma crítica por Medvedev ser uma marionete do político Vladmir Putin. Na ação, cinco casais adentraram o Museu Nacional de Biologia da Rússia, se despiram e realizaram sexo em público. O ato era uma crítica geral ao discurso eleitoral de Medvedve de que os casais russos deveriam aumentar suas taxas de natalidade, e também uma associação com o ato sexual à livre interpretação de que o governo russo “fode com a vida da população”. Nadja e Pyotry estavam entre os casais participantes, e ficaram no Voiná até 2009.

Pussy Riot pintura da artista Julia Jane J-Art-J.

Uma terceira integrante de Pussy Riot que ficou nacionalmente conhecida, além de Nadja, Pyotry e Yekaterina foi a jovem Maria Alyokhina, que antes de compor o grupo militava pelos direitos do meio ambiente e dos animais pelo Greenpeace. Junto de outras garotas e com a ajuda de Pyotr, criaram o grupo punk ativista, feminista e anti-Putin chamado Pussy Riotou “Revolução da Buceta”, em tradução literal. Os rostos de Nadja, Pyotry, Yekaterina e Maria ficaram mundialmente conhecidos após uma ação que levou todas as três garotas para cadeia; no entanto, o grupo Pussy Riot tem vários membros não conhecidos pelo público geral, que atuam desde musicistas na banda como articuladoras, redatoras e cinegrafistas. Yekaterina deixou Pussy Riot após sair da prisão.

Nadja, Yekaterina e Maria, presas em 2012 após ação performática em uma igreja de Moscou.

Pussy Riot é um grupo punk feminista. Sua proposta é de causar estardalhaço e chamar atenção para as questões políticas da Rússia, como a legalização do aborto, a violência doméstica, a censura ao discurso contrário ao governo e as políticas contra os direitos dos homossexuais. Para chamarem a atenção, usam balaclavas coloridas em suas ações públicas, e suas ações performáticas são geralmente realizadas em locais altos e de grande circulação de pessoas. Também são um grupo musical punk, embora o estilo e musicalidade sejam suas últimas preocupações. Com amplificadores extremos, elas geralmente gritam palavras de ordem contra o governo e contra as políticas autoritárias de Vladmir Putin. Elas tem um canal no youtube, conta no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube, além de um website. Estes meios de comunicação só foram possíveis após a grande atenção internacional que a prisão de três integrantes gerou, em 2012. Neste ano, elas levaram instrumentos musicais para dentro de uma igreja católica ortodoxa e gritaram palavras contra o governo. Apesar da ação ser puramente política contra a ditadura forjada e hipócrita de Vladmir Putin, as jovens foram condenadas por terem ofendido “a moral e os costumes”.

Ação na Final da Copa do Mundo de 2018

Em 15 de Julho, o grupo Pussy Riot publicou um vídeo no Youtube pouco antes de quatro integrantes invadirem o estádio Luzhnike, em Moscou, onde acontecia o jogo entre Croácia e França, pela disputa do título mundial. No vídeo, três integrantes discursam sobre o estado antidemocrático e hipócrita da Rússia, e argumentam sobre a falta de participação política honesta e a prisão de líderes contrários a Putin.

Pouco tempo depois, a partida foi interrompida quando quatro integrantes invadiram e correram pelo meio do campo, vestidos com roupas de policiais, até serem detidas por policiais. A ação foi denominada pelo grupo como “O Miliciano Entra em Campo”. Todos os integrantes foram imediatamente detidos e levados pela polícia local. Os jovens entraram no estádio com passaportes de turistas, e as moças usando perucas. Um áudio vazado no Twitter mostra o diálogo de dois membros detidos, Pyotr Verzilov e Nika Nikulshin, com um policial:

Policial: Vocês decidiram ferrar a Rússia?

Pyotry: Não, nós somos a favor da Rússia.

Policial: Ah, sim? Você sabia que a Rússia será penalizada e deverá pagar à FIFA por isso?

Policial: (Grito indistinto).

Pyotry: Nós somos pela Rússia, assim como vocês são, se é que são.

De acordo com o site que publica informações oficiais de Pussy Riot, os advogados do grupo só puderam ter contato com os membros da banda há pouquíssimo tempo, e ainda não receberam os protocolos de enquadramento e prisão.

Pussy Riot por Vanya Berezkin (2012).

A ação do grupo visou atrair atenção mundial para os presos políticos do país que, segundo a banda, estão presos por serem politicamente contrários ao governo. Vários integrantes da banda Pussy Riot já foram presos por oposição política, embora os argumentos forjados para a prisão fossem de “atentado aos princípios religiosos do país”. O governo russo é criticado por manipular a democracia no país, com eleições armadas que não refletem uma competição política justa e honesta. O líder presidencial, Vladimir Putin, é conhecido por não admitir manifestações contrárias a seu governo, além de ser acusado de vários atentados contra opositores de seu governo, que variam desde prisões sob argumentos forjados e envenenamento.

Com a ação, o grupo pode receber sanções ainda nem imagináveis.

Curiosidades

  • Apesar de ser um grupo feminista, Pussy Riot também tem homens que integram as ações, como o marido de Najda, Pyotr. A participação masculina no grupo é mais focada no apoio e na logística, embora alguns deles participem eventualmente das ações diretas.

  • A ativista Nadja estava grávida de oito meses quando realizou a performance de sexo em público pelo grupo Voiná. A ação chocou ainda mais pelo advento da sua gravidez em estágio avançado.

  • Três integrantes do grupo, Nadja, Maria e Pyotr fizeram uma participação especial na série House of Cards, 3ª temporada, interpretando a si mesmos.

  • O grupo tem duas músicas em inglês, sendo “Make America Great Again”uma crítica à eleição de Donald Trump, aliado comercial de Vladmir Putin; e “Straigh Outta Vagina”, uma música que critica a repugnância às mulheres, ao feminismo e a seus órgãos genitais, uma vez que toda pessoa que há no mundo saiu de uma vagina.

  • A cantora Madonna, durante um show em 2012 na cidade de Moscou, defendeu a libertação das integrantes com um protesto no próprio corpo. No meio da música, a cantora abriu os braços onde podia-se ler “Free Pussy Riot”, fato que alçou ainda mais o apelo internacional para que as jovens deixassem a cadeira por fazer oposição política.

  • Há um documentário sobre o grupo chamado “Pussy Riot, a Punk Prayer”, de 2013, e um livro detalhado sobre a prisão e o processo de 2012 chamado “Palavras Quebrarão Cimento – A Paixão de Pussy Riot”, da jornalista Masha Gessen.

Texto original pelo Lado M, aqui.

Comentários

Be First to Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *