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Castração química é a ideia de que o estupro está no “pênis”, e não na cultura.

Sempre que um machista te apresentar a ideia de “Castração Química” para o combate ao estupro, pergunte se ele conhece a história do “Maníaco do Parque”. Isso mesmo, sabe o Maníaco do Parque, o cara que estuprou e matou várias mulheres em São Paulo, usando como arma maior o seu pênis, conhecido na cultura popular como o mais perigoso serial killer da criminologia brasileira? Pergunte se ele conhece essa história.

Pergunte se ele sabe que Francisco de Assis Pereira, o homem que assassinou pelo menos seis mulheres e tentou matar outras noves, era um completo impotente sexual. Pergunte se ele sabia que, mesmo sendo incapaz de manter uma ereção e ejacular normalmente, em relações sexuais naturais, Francisco foi capaz de subjugar, sequestrar e assassinar a sangue frio várias mulheres que seduzia no metro. A impotência não o impediu de ser um maníaco em série, considerado o pior caso deste país. A impotência sexual não o impediu de estuprar.

Por fim, pergunte se ele sabe que castrar um homem e deixá-lo incapaz de manter ereções não impedirá, jamais, que ele subjugue uma mulher, que a estupre, que ele a mate (ele, no mínimo, ficará pensando). Porque os machistas acreditam que o problema social do estupro está no pênis, no órgão sexual, e não na cultura. Eles não associam que o estupro começa no domínio, no poder e na subjugação, no ato de submeter o outro a seus comandos, associando o ato sexual forçoso como forma de inferiorização. Como se o estuprador não pudesse usar um objeto, um artefato, ou até mesmo as próprias mãos pra estuprar alguém. Para os defensores da castração química, a mágica está na anulação do pênis como único responsável pelo crime.

Aqui reside o problema da cultura do estupro. O debate não vai além dos órgãos genitais, não perpassa pela sociedade, sequer aborda os ambientes em que eles mais ocorrem (dentro de casa, perto dos familiares, pelos próprios familiares). Dentro do terreno mais raso que possa existir, a discussão emplacada pela candidata à Presidência Manuela D’Ávila é de que não podemos castrar incessantemente achando que isso resolverá o problema do Brasil. Não se trata apenas de punir, mas de educar para que uma estrutura social, cultural e complexa possa se regenerar.

Está mais do que na hora de parar de achar que um pinto age sozinho, e em vez de castrar órgãos e mentes, façamos diferente.

Ilustração de Maíra Colares.

Se você não assistiu a entrevista desrespeitosa e machista com que a pré-candidata Manuela DÁvila foi tratada no programa Roda Viva na TV Cultura e quer assistir, segue o vídeo:

Comentários

14 Comments

  1. Lucas Lucas

    “Tá na hora de achar que um pinto age sozinho, e em vez de castrar órgãos….”
    Só ajudando na correção: Seria “na hora de parar de achar…” Não?
    Ótimo artigo!

    • Jessica Beauvoir Jessica Beauvoir

      Opa! Vi agora, obrigada!

  2. primeiramente desculpe qualquer incômodo por comentar sem te conhecer, vi o link num… no feed de noticias de dois amigos e vim ver…

    assim,

    mas também é um erro dizer que o estupro não está no ‘pênis…

    ele está sim, é isso’ que vai entrar no orgão de uma mulher ou no anus de um rapaz e vai realizar o crime…

    só um detalhe: pouco se fala em estupro sofrido por garotos e mesmo homens…

    tipo…

    não quero criar polemica, nem irritar ninguém…

    o estupro está na cultura, na mente (livre-arbítrio do estuprador), e no etc…
    tipo, a cultura influencia muito, assim como condições psicanalíticas…

    mas um grande erro do materialismno filosófico,
    levado adiante pela esquerda e também pela direita
    (pois se não não fariam o que fazem, agindo como animais, tipo, bestas)

    é negar a idéia, conceito, vivência, etc
    do LIVRE ARBÍTRIO DAS CONSCIÊNCIAS…..

    ora, nós temos alma…

    caso contrário, não teríamos saído da digamos idade das pedras mitológica…

    não somos máquinas eternamente condicionadas
    a um conhecimento a posteriori, instintos a priori,
    a uma capacidade maior ou menor de cálculo cognitivo e de atuação….

    por isso que a alma existe…….

    eu provei pela lógica, em estudos meus, que
    é impossível não haver deus….

    e que somos dotados de alma,

    e sim, o condicionamento do materialismo – mesmo o mais dialético possível – tosco,

    à consciência humana….

    diminui em cerca de 36x a potencialidade psíquica humana…..

    ou seja, o materialismo do ANIMUS humano,

    é um instrumento de sufoco das consciências

    e gera MARIONETES…..

    se a direita está discutindo PENAS

    não se pode deixar de discuti-las,

    ou seja, tem grupo que já deu um visu na cultura, mesmo mal dado,
    e está discutindo penas….

    pra mim todo estuprador e abusador (e sim, infelizmente em alguns casos abusadoras) sexuais….

    (mesmo que lógico, os estupradores masculinos sejam bem mais)

    deve levar um tiro, ou ser linchado na rua, ou ser castrado quimicamente,
    de preferência morto…..

    falo isso porque já fui abusado mais de 12x na vida……

    e é um saco, ainda mais por menino, cara, sei lá, homem,
    depois gente vir com piadinha….

    e nas minhas possibilidades sim, combato a cultura do estupro
    mas também os estupradores…

    • Karen Karen

      Não é, necessariamente, o pênis que é inserido na vagina ou ânus da vítima.
      O estupro não tem só a vê com pênis.
      As pessoas usam mão, qualquer pedaço de madeira que encontre por aí… Há inúmeros objetos usados.
      Viu o caso recente da moça estuprada com cana de açúcar?

    • Amanda Amanda

      Samuel, só um comentário sobre o que você escreveu: homens estupram com qualquer coisa se assim quiserem, não apenas com pênis! Os casos sitados são exemplos, mas não fogem à regra: sem pênis ereto, homens estupram do mesmo jeito, seja com o corpo ou com outros instrumentos mais letais. Entendo, também já sofri violência sexual, sei o que gera em nossas vidas. Mas o que estamos dizendo é: castração química não resolve NADA, nadinha mesmo! Não são pênis que estupram. São pessoas, sistematicamente homens (justamente porque o que nos diferencia enquanto seres humanos é a capacidade de construir cultura, e a nossa é machista e misógina, bem como vulnerabiliza crianças e outros grupos oprimidos). Quando afirmamos isso não quer dizer que temos pena de estupradores ou que priorizamos sua reabilitação. Priorizamos nossas vidas e integridade e, por isso mesmo, precisamos que entendam que políticas voltadas pra castração química não resolvem nosso problema! Castração química apenas reproduz a ideia de que a culpa é do pênis e não da cultura; como se homens castrados fossem parar de estuprar. Isso é além da ingenuidade, é não entender nada do problema social. Será ineficiente, continuaremos sendo estupradas e mortas.

  3. Samuel Neves Samuel Neves

    só um comentário a mais…

    esqueci de completar….

    pra menina, mulher, também deve ser – e eu sei que é –
    INSUPORTÁVEL

    aguentar o cara que a abusou, violou, etc

    se achar o homem etc

    e outra,

    pro menino rapaz homem decente

    também é insuportável

    aguentar humilhação do abusador, violador, obsessor,

    de que prejudicou a ‘menina que vc AMA…

    ou mesmo qualquer guria inocente, digamos…..

    se é pra discutir cultura do estupro

    tudo isso tem que ser levado em consideração….

    inclusive mulheres mal-intencionadas (a imensa minoria, mesmo que
    o sistema das coisas, inclusive levado adiante por setores da esquerda…

    e da direita, lógico,

    que humilham, por questões de ideologia política, filosofica,
    espiritual, de status social, etc

    garotas e rapazes que foram vítimas….

    ou isso não existe e eu sou louco?

    só pra constar….

    essa humilhação psicologica também é insuportável
    tanto pra quem sofreu, quanto pra quem ama a pessoa,
    e mesmo tem empatia, compaixão com qualquer pessoa
    vítima….

    e como no brasil e mesmo no mundo

    o estupro e outras violências sexuais

    ocorre demais…

    e as ALMAS SEBOSAS, seja de que segmento social for,
    geralmente se vangloriam do crime….

    tudo se torna muito complexo…

    que apenas a coragem é possível……

    levar adiante…..

    quase sempre com muito sofrimento….

  4. Samuel Neves Samuel Neves

    e outra, cultura do estupro

    não é só esses maníacos…

    que sim, são….

    mas é muito, muito mais…

  5. Juliana Juliana

    Tem que castrar. Esses monstros passam poucos anos presos (e quando vão presos) e depois o Estado solta como se nunca mais eles fossem estuprar. Eles nunca param e É OBRIGAÇÃO DO GOVERNO GARANTIR QUE UM MARGINAL DESSE NÃO VIOLENTE MAIS OUTRAS PESSOAS.

  6. Juliana Juliana

    Outra coisa: que argumento mais sem noção usar 1 criminoso como exemplo. Seria preciso aplicar castração química em vários e monitorá-los. Não tem nada de científico em seu texto. Só um monte de blá de quem nunca foi estuprada.

  7. Auro Barreiros Auro Barreiros

    O machismo e suas ramificações comportamentais (dominação, violência física e psicológica, objetificação e sentimento de posse sobre a mulher e o abominável estupro) é realmente cultural. É produto de milênios de vida tribal/patriarcal, sustentada pela truculência típica do macho humano primitivo. Assim, ainda que encampada por algumas correntes ideológicas, não é uma questão que se resolva com soluções políticas ou modelos filosóficos, cuja aplicação esbarra nas barreiras ancestrais da formação do caráter. Mudança íntima, para o adulto, é um processo doloroso e muitas vezes inglório. Certamente, o caminho seguro, a médio e longo prazo, seja ministrar a ética desde a primeira infância, de modo a fixar novos valores na geração vindoura. Somos seres de hábitos; importa decidir quais hábitos desejamos cultivar, como indivíduos e como sociedade.

  8. Amanda Amanda

    Homens estupram com qualquer coisa se estiverem dispostos. Pênis não é o problema e nem necessário para acontecer estupros, incluindo os mais violentos.

  9. Matheus Matheus

    Haha seguindo essa logica, entao porque a esquerda aprova o estatuto do desarmamento ? Afinal, o problema não esta na arma, e sim na cultura de armamento. Se faria então necessario que as pessoas continuassem armadas e se trabalhasse contra a cultura da violência com arma de fogo. Vocês ne fazem rir.

    Se a “cultura” é o problema nenhum estuprador pode ser condenado, porque afinal, a culpa não é dele e do seu pinto, e sim da cultura, que é algo abstrato e não condenável.

    Faz o seguinte, quem é a favor dessa besteira, se forme psicólogo, pegue um estuprador e leve pra sua casa pra tratar da cultura que existe, fazendo com que ele estupre pessoas, na mente dele.

    Castraçao quimica não vai corta o pau de ninguem fora, somente vai levar a “0” a libido do meliante estuprador.

  10. Rogério Arantes Rogério Arantes

    Larguem a mão desse babacas a castração e no caráter de pena intimidatória,e não reincidência!

  11. Gloria Ferreira Gloria Ferreira

    É justificável a explicação de que estupro vai além de órgãos genitais. Mas o seu artigo não deixa claro uma solução coerente e clara para tal problema. ”Conscientização e educação” é senso comum, é uma saída generalizada. Não dá pra jogar livros ou textões de facebook em um agressor totalmente desequilibrado e inconsciente dos seus atos.

    Logo, nesse caso, como mulher e vítima desses filhos da puta, prefiro sim uma punição mais definitiva como a castração química que, se por um lado não resolve o problema estrutural da cultura, ao menos ameniza, amedronta e reprime de forma mais efetiva essas práticas.

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